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Entrevista com Arlete Sampaio

Em entrevista para o site do PT a ex-vice-governadora, ex-deputada distrital e petista Arlete Sampaio analisou o atual momento de crise política nacional. “Nós demos margem aos que têm divergências ideológicas históricas com a gente tivessem uma bandeira para atacar o PT”, pontuou.
Arlete ainda avalia a gestão do PT no GDF e comenta as novas tarefas políticas que o partido tem à frente no Distrito Federal”. Confira a íntegra aqui:
1 – Existe uma crise política no PT?

Acredito que vivemos uns dos momentos mais difíceis do Partido dos Trabalhadores e a situação mais complexa que se apresentou para nós do PT nesses 13 anos de governo. Este momento é a combinação de uma crise econômica e uma crise política.
No governo do presidente Lula, também houve uma crise política, entretanto, a situação econômica era favorável e sustentou o governo, ao mesmo tempo em que manteve uma base ampla de apoio. No atual momento, existe uma crise econômica que alimenta a crise política e vice-versa. É realmente um momento muito difícil!

2 – O PT poderia ter feito alguma coisa para evitar ou amenizar essa crise política?

Essa crise não é uma crise política só do PT, existem muitos outros partidos envolvidos nela. Mas acredito que a principal responsabilidade do PT nessa crise é ter dado motivos para questionarem o nosso compromisso com a ética.
Alguns companheiros do PT, ao praticarem os mesmos esquemas que historicamente a direita praticava no Brasil, fizeram com que a sociedade se sentisse traída pelo partido, decepcionada. Daí vem toda essa carga, que está aliada ao ódio que as elites brasileiras têm do Partido dos Trabalhadores. Hoje temos um quadro de crise do PT com algumas pessoas acreditando que o partido já acabou ou que todo mundo está envolvido com corrupção.
A principal responsabilidade foi não termos tido o cuidado de, enquanto militantes do Partido dos Trabalhadores, que atuávamos no governo, seguir defendendo ferrenhamente a ética na política, o combate à corrupção. Nós demos margem aos que têm divergências ideológicas históricas com a gente tivessem uma bandeira para atacar o PT.

3 – A senhora acha que se o PT tivesse cuidado um pouco mais desse debate sobre o combate à corrupção a crise atual teria sido evitada ou existe um cansaço, um desgaste desses 12 anos de governo?

Se tivéssemos tido mais cuidado, nós teríamos melhores condições de enfrentar a crise de hoje, porque ela é uma crise econômica internacional, mas que nós, a partir desse segundo mandato da presidenta Dilma, estamos aprofundando com as políticas que estão sendo implementadas pelo Ministério da Fazenda. Consequentemente, essas medidas estão enlarguecendo a crise política, porque cada vez que a gente aprofunda a crise de legitimidade do governo junto aos trabalhadores, cada vez menos teremos pessoas dispostas a nos defender publicamente. É preciso mudar a política econômica, mudar a equipe, mudar a estratégia para que a gente comece a ter condições de enfrentar as duas crises: a econômica e a política.

4 – O PT, ao longo desses 12 anos, confundiu o papel do governo e o papel do partido?

O PT não soube manter a sua autonomia em relação ao governo. Nós temos e deveríamos ter toda a responsabilidade com nosso governo. Trabalhamos para fortalecê-lo e fazer com que ele dê certo para executar o programa definido pelo partido. Mas, ao fazer opção por não ser autônomo ao governo, o PT se cala, se omite e deixa de fazer pressão pela esquerda.
Nós temos um governo amplo, um governo formado por diversas vertentes políticas, desde a direita, até a esquerda, passando por todas as nuances. A direita e, sobretudo, a mídia fazem uma pressão brutal para que o governo assuma bandeiras que não são as nossas, que não são as do Partido dos Trabalhadores. Se não existe o PT aliado aos movimentos sociais para fazer uma pressão pela esquerda, o governo não resiste às tentações de seguir pelo caminho do senso comum. Faltou ao PT uma visão de que o partido tem de resguardar sua autonomia, a despeito da sua responsabilidade com o governo para que ele possa atuar sob o governo, no sentido de puxá-lo para à esquerda.

5 – E aqui no DF, você acha que se reproduziram os erros?

Acho que aqui no DF nós temos mais elementos. Em Brasília, a ausência de autonomia política do partido foi ainda mais gritante. Aqui nós tivemos, sobretudo, a cooptação do partido pelo governo. Então, o partido fazia o que o governador Agnelo dizia que ele tinha que fazer. Isso foi muito grave!
Aliados a esse fator, nós tivemos problemas de outras naturezas. A própria figura do governador não convencia a população que aquele era um governo de ação. Nós fizemos muitas coisas importantes nessa cidade, mas, particularmente, os últimos meses da nossa gestão destruíram completamente a possibilidade de a sociedade reconhecer as coisas positivas que a gente fez.
Tivemos um fim de governo lamentável! A sociedade não consegue separar o governo que deu certo durante um período e o governo que não deu certo no final. A leitura da sociedade é que o governo não deu certo, a partir da vivência que ela teve nos últimos meses da gestão passada.

6 – Você encara essa derrota do Agnelo como eleitoral e política?

Não! É pior que isso. Foi uma derrota eleitoral muito triste, política profunda e uma derrota moral, porque a gente ficou sem condições de fazer a defesa do governo nos últimos meses.

7 – Depois desse cenário caótico no DF, um cenário ruim no Brasil, como fica o PT, quais são os próximos passos?

Nós temos um grande desafio pela frente e é impressionante como alguns companheiros não estão enxergando o tamanho da crise que vivemos. Eles já começam a discutir as eleições de 2018. Acho isso um equívoco brutal. Nós temos que juntar os petistas para fazer um debate estratégico e tentar resgatar “o espaço do PT” na nossa cidade. Hoje nós temos cinco deputados distritais petistas na Câmara Legislativa e temos a Erika Kokay na Câmara Federal. Todos esses companheiros têm uma postura irretocável, correta, lisa e a sociedade reconhece isso. Mas a gente não consegue passar essa imagem para todo o conjunto do partido. Se a população do DF olhar para a CLDF e perguntar: quem é o deputado que não participa de negócios, de acordos espúrios? São os deputados do PT. A bancada de deputados do PT-DF tem uma performance exemplar em defesa dos direitos dos trabalhadores, em defesa das minorias, dos mais oprimidos pelo Estado, mas a gente não consegue, enquanto partido, fazer a sociedade reconhecer esse trabalho positivo que nossos parlamentares fazem.
O partido está destroçado, a direção que está aí (em seu conjunto, não estou fazendo avaliação individual de nenhum dirigente) não está à altura dos desafios deste momento. A gente precisa reanimar o partido, temos que fazer o partido começar a discutir a realidade atual que estamos vivendo. Como podemos resgatar esse partido? Como poderemos mostrar à sociedade que a história do PT em Brasília não acabou? Não sei responder a todas essas perguntas, mas precisamos mostrar que a história do PT em Brasília é extremamente importante para sociedade e que nós queremos continuar esse trabalho com o povo do DF.
Não podemos aceitar que alguém diga: não voto em você porque você é do PT, quando, ao mesmo tempo a pessoa vota no PRTB, cujo presidente está preso e foi novamente condenado à prisão. Ou que deixe de votar no PT para votar no DEM.
A gente não está dialogando com a sociedade para fazê-la pensar. É preciso que a gente retome a coragem de ir às ruas e apresente para sociedade os elementos que a permitam refletir sobre a postura irracional que está predominando.

8 – Então, você avalia que esse não é o momento mais propício de pensar uma candidatura do PT/DF para 2018? O PT tem real possibilidade de disputa?

Eu acho que nós temos que sair da inércia. Fazer uma reflexão, um brain storm, com todos os principais quadros do partido a fim de discutir qual a nossa estratégia em 2018. Depois disso, podemos chegar à conclusão de que temos que apresentar à sociedade uma candidatura limpa, íntegra, para fazer o debate político e, a partir disso, a gente vai atrás dessa pessoa.
Outro caminho pode ser: nós não temos condições de ter um nome à frente do governo e queremos fazer uma composição política, analisando todas as possibilidades, sobretudo aquelas que vão ajudar o PT a se recompor no campo de esquerda. Não aquelas que vão jogar o PT para o campo da direita.
Acho que temos que fazer o debate, conversar com a população e construir caminhos. O partido está parado, o partido está inerte, não dialoga com outros partidos. Precisamos reaver o debate político com outros partidos de esquerda. Por que não?

9 – E qual será o seu papel nessa recomposição, Arlete?

Meu papel é atuar nos bastidores e ajudar o PT a sair dessa crise. Eu cumprirei qualquer tarefa, o que for preciso para ajudar o meu partido. Vamos ver se existe vontade política para sair dessa crise encrenca ou se vai predominar outros interesses que muitas vezes são pouco preocupados com o resgate ideológico do partido.
Pretendo fazer debates sobre a avaliação das políticas públicas do atual governo. Vamos pontuar – juntos aos movimentos sociais, aos servidores públicos, a população – o que fizemos, o que deixamos de fazer na nossa gestão e qual é a proposta do atual governo. Faremos isso em todas as áreas. Por exemplo, na área onde fui secretária, na Sedest (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Social do Distrito Federal), esse governo está desconstruindo todos os programas, as políticas públicas que implementamos.
Vão acabar com o DF sem miséria e transformá-lo num outro programa que ninguém sabe exatamente o que será, mas, em minha opinião, será um programa que reduzirá os gastos do governo com os mais pobres. Existe uma visão neoliberal que esta predominando no atual governo. Nós não podemos aceitar isso!

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