Tese da Avante S21 e do MAS-PT

ENCANTAR, ACOLHER E LUTAR!

Primeiramente, FORA TEMER GOLPISTA!

  • Introdução:

A atual conjuntura da geopolítica internacional, que ao longo dos últimos anos caminha no sentido de avanço das forças direitistas, fascistas e antiprogressistas, ao tempo em que aprofunda o recrudescimento da luta de classes em todo mundo – tendo como alguns exemplos mais recentes o episódio Brexit, a eleição de Donald Trump nos EUA e as diretrizes golpistas adotadas para desestabilizar as democracias latino-americanas – se somam a um já longo processo de militarização do planeta e de precarização das relações de trabalho, para conduzir o capital ao limite da sua capacidade de exploração sobre a classe trabalhadora. Estamos em estado de golpe, sob a égide da “barbárie” de que nos alertou Rosa Luxemburgo.

A perspectiva nacional da luta evidenciou para a sociedade que o Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores se apresenta hoje como o alvo central dos ataques da direita fascista e antiprogressista no país, através dos veículos da mídia hegemônica classista. O golpe de 2016, que depôs uma presidenta legitimamente eleita, revelou os mecanismos que as elites e o patriarcado dispõem para atender aos interesses do capital em detrimento da nossa frágil democracia. Desde então a esquerda está colocada diante do desafio inédito no cenário da redemocratização, que é o de construir a luta do amplo espectro das esquerdas, dos movimentos sociais e dos interesses populares da classe trabalhadora no sentido de resistir e barrar os incomensuráveis retrocessos que se colocam diante da sociedade brasileira: combater nas ruas e nas redes as reformas da previdência, das leis trabalhistas e do ensino médio, o entreguismo e a privatização dos recursos naturais do país, os ataques aos direitos sexuais e reprodutivos; fortalecer as pautas LGBT e a luta pela democratização dos meios de comunicação; revigorar diuturnamente as lutas por justiça social. Em síntese, o golpe que usurpou do nosso partido a presidência da república conquistada dentro da institucionalidade democrática é o golpe que tenciona arrancar das classes trabalhadoras e da sociedade todas as conquistas alcançadas até então, sobretudo na perspectiva dos direitos sociais.

Há que se considerar, ainda, toda a conjuntura de retrocessos no Distrito Federal. Do ponto de vista local, precisamos consolidar uma oposição consistente, firme, fundamentada, responsável e definitiva ao governo Rollemberg, que ao evidenciar o seu caráter arrivista e cúmplice do golpe contra a democracia, demonstra o seu compromisso com interesses que se contrapõem aos interesses da classe trabalhadora. Desta forma, observamos no DF o desinvestimento em áreas sociais prioritárias como educação e saúde, que atingem de forma profunda a sociedade. O nível de repressão às lutas populares, as violências arbitrárias e a ausência de diálogo com as bases dos movimentos sociais em processos de desocupação violentos e desumanos, a falta de diálogo com os sindicatos, a incapacidade deste governo de atender à reinvindicação histórica de estabelecer o Conselho Distrital LGBT, a ausência de transparência e de controle social sobre o orçamento público, os impactos de toda incompetência política em áreas críticas como mobilidade urbana, cultura e gestão de recursos hídricos são as justificativas fundamentais que nos colocam em oposição a este governo, que em nada contribui para os interesses sociais e populares, pelo contrário: qualquer movimento que implique em nada menos que a luta contra o governo Rollemberg significa, objetivamente, uma imperdoável traição de classe. Criticar sem combater esse governo indefensável sugere, segundo a teoria marxista, uma falsificação histórica: “É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas”.

  • O PT e a Esquerda:

Defendemos a centralidade da formação política de nossa militância, considerando a perspectiva de que não há luta revolucionária sem teoria revolucionária, e, incorporando a necessária autocrítica de que prescindimos desta importante tarefa num período crucial da nossa luta, tendo o partido arcado com o ônus desta escolha equivocada, entre outras coisas, pagando o alto preço do golpe. Pelos menos três aspectos, relacionados à nossa limitação nos espaços de formação política no âmbito do partido contribuíram para o avanço do golpe: primeiramente, a falta de um debate mais substancial acerca das estruturas do patriarcado em nossa sociedade, que não nos permitiram trabalhar adequadamente o combate aos mecanismos machistas e sexistas que permeiam a destituição da primeira mulher presidenta deste país, sem qualquer base legal ou material; segundo a nossa inabilidade de construir, a partir das bases, análises de conjuntura que evidenciassem naquele momento histórico a capacidade de articulação da direita e a capilaridade das elites (armadas pelas estruturas da mídia hegemônica) para cooptar os setores médios da sociedade a partir de um discurso relacionado ao fatalismo econômico e às pautas conservadoras em favor do antipetismo irracional; por fim, é preciso reconhecer a nossa incapacidade de dialogar com os temas “duros” da política econômica, orçamentária, das políticas públicas e dos impactos da crise financeira internacional em nossa economia, dificultando, do ponto de vista da geração de dados acessíveis, a construção de uma defesa sólida para o mandato da presidenta Dilma e para rebater os ataques orquestrados pela direita. A história não nos permite afirmar, indubitavelmente, que, armados com as bases teóricas revolucionárias que apenas a formação política oferece, teríamos consagrado a vitória contra o golpe. Entretanto, é preciso admitir que, diante de tais fragilidades, certamente nos faltou esta alternativa de edificação de uma resistência mais consistente, pelo menos no campo das ideias e da construção do discurso. Bradar “é golpe” não nos bastou.

            Além disso, consideramos que para seguir avante nas comunicações e métodos de gestão de um partido com as dimensões do PT, é preciso incorporar o crescimento vertiginoso do uso de novas mídias, de redes sociais via internet e a disseminação dos aparelhos digitais para promoção da política, debate e incentivo à participação da sociedade. É preciso consolidar essa dimensão no partido, criando mecanismos e definindo a quais circunstâncias se adéquam tais contribuições, até mesmo nos processos de tomadas de decisões, com a colaboração da aguerrida militância petista via web. Essa possibilidade amplia substancialmente o espectro de atuação das/os integrantes do partido e incentiva a tão almejada e necessária resistência contra a enxurrada de factoides e inverdades que constroem versões, por vezes absurdas, sobre a atuação do PT. A chegada da internet no cenário político brasileiro, bem como no contexto mundial, demonstrou seu poder de influência, não só na alteração das formas de acessar informações, mas na própria gestão das demandas e, até mesmo, em como a população pensa a política, partindo de um novo paradigma de organizações sociais, por meio da cultura de redes.

Negar essa reflexão é perder o bonde da história e o potencial de formulação política disseminado entre nossas companheiras e companheiros, além de negar o debate político no cerne de nossa militância. A burocratização e instrumentos de manutenção das antigas hierarquias verticalizadas no partido dão lugar a uma nova dinâmica, que conclama a reflexão sobre nosso papel para que não percamos o protagonismo nesse diálogo em que, até o presente momento, a direita tem progredido visivelmente.

O alcance da direita cresce com a falta de compromisso ideológico e o fortalecimento das redes de ódio por anúncios pagos, além da contratação de equipes publicitárias profissionais para estas promoções. Ainda assim, observa-se a inabilidade do PT/DF em promover uma ampla campanha de formação de nossa militância para atuação nas redes sociais e meios informatizados. Cada dia mais a política passa pelos cabos de fibra ótica. Estaremos nós abertos para essa disputa? Ou estaremos utilizando as redes para apenas manter tudo como dantes nas discussões internas do partido? É tempo de debater o papel das redes, e ainda discutir o quanto as dimensões verticais e horizontais que se ampliam nos movimentos sociais podem colaborar para uma gestão partidária de maior efetividade, com abertura real para a colaboração de nossa militância e descentralização de algumas lutas que, a prosseguirem como estão, poderão nos levar a resultados catastróficos diante do quadro posto.

Para tanto, é necessária a construção de espaços participativos e dialógicos numa perspectiva radicalmente democrática e acolhedora, que valorize a diversidade de vozes, que assegure a integridade e o respeito às divergências políticas, preservando a integridade humana e individual de todas e todos as e os militantes: mulheres, pessoas negras,  LGBT, pessoas com deficiência, pessoas psicoátipicas, etc.,  e garantindo que em todo e qualquer lugar de luta – dos encontros e reuniões aos debates virtuais realizados no locus das redes sociais em geral – haja espaço para a construção do partido na perspectiva de uma divergência saudável e acolhedora. Nem sempre, ou quase nunca, haverá consenso. Entretanto, a/o companheira/o de partido com quem divergimos não precisa e não deve ser “destruída/o” para que possamos “marcar posição”. A trajetória da nossa luta precisa ser construída em um terreno seguro que abranja a diversidade da nossa militância e que supere as violências simbólicas que são vivenciadas no âmbito da sociedade, às quais cabe ao partido assumir a tarefa histórica de combater e não de reproduzir.

  • Encantar e acolher a Militância:

O maior desafio das esquerdas em todo mundo tem sido o de mobilizar as massas, promover a agitação e um ritmo constante de atuação da militância. Os consecutivos ataques do capitalismo neoliberal sobre as classes populares, os inúmeros retrocessos sociais que acompanham os impactos da crise econômica, o aumento do desemprego, a epidemia de doenças emocionais e psíquicas, o desânimo generalizado diante de uma sensação de falta de perspectiva na luta são alguns dos problemas a serem enfrentados. No Brasil, a todas estas questões se somam a própria dificuldade de estabelecer uma análise de conjuntura num cenário em que os chamados “protestos de junho de 2013” romperam os parâmetros – quantitativos e qualitativos – das lutas sociais, expondo as fragilidades da esquerda em lidar com os movimentos de massa, sobretudo em um cenário de interferência e manipulação da grande mídia, o que endossou e antecedeu o golpe de 2016, uma grave ruptura na democracia institucional, tão frágil e tão recente em nosso país…

Consideramos que tantos obstáculos só podem ser superados a partir de uma nova dimensão de mobilização para a luta: o encantamento. O encantamento no sentido de incorporar os valores humanos em sua radicalidade – como Marx definiu – indo à raiz das coisas, pensando e praticando a nossa luta, a nossa militância não em momentos excepcionais ou eventos específicos, mas vivenciando os desafios e os encantamentos da luta por justiça social e transformações radicais no âmbito do cotidiano. O encantamento que nos permita criar, fortalecer, renovar, resgatar as nossas redes de solidariedade revolucionária e tecer novas formas de resistência.

Este encantamento é também o estabelecimento do lugar de acolhimento na militância: ressignificando a construção dos debates, promovendo espaços de divergência saudável, gerando momentos de formação, assegurando vivências criativas e solidárias, fortalecendo a apropriação das ferramentas digitais e das novas tecnologias nas redes, construindo e registrando as nossas místicas e utilizando na luta as nossas manifestações culturais e populares. Tais tarefas devem estar voltadas para o fortalecimento das estruturas internas do partido e da intensificação do trabalho de base numa perspectiva inovadora, que envolva e valorize as experiências e saberes individuais das mulheres, da juventude, da população LGBT, das pessoas com deficiência, das trabalhadoras e trabalhadores sem terra e sem teto e suas organizações, das pessoas psicoátipicas, da população negra, dos representantes de movimentos culturais e de defesa da democratização dos meios de comunicação, dos povos e comunidades tradicionais, enfim, de toda a diversidade de que somos compostas/os.

Todo esse trajeto precisa ser percorrido com união e respeito pelas diferenças, oferecendo às companheiras e aos companheiros um ambiente de segurança e cuidado. É preciso nos desafiarmos individualmente e enquanto coletivo para romper com algumas barreiras que, infelizmente, ainda persistem em muitos espaços do partido: o machismo, o sexismo, o preconceito e a desqualificação das pessoas psicoátipicas por conta da sua condição pessoal, o revanchismo agressivo entre integrantes de diferentes correntes, as disputas de soma zero em que o limite do “confronto” é a derrota ou destruição da/o outra/o, as inúmeras práticas preconceituosas do cotidiano – que vão das piadas gordofóbicas e homofóbicas ao menosprezo por companheiras/os meramente por conta da sua condição de mulher ou de jovem – enfim, é preciso combater com rigor a reprodução da sociabilidade atomista do capitalismo no interior do nosso partido. Não é um desafio fácil, mas se existe um espaço na sociedade em que seja possível desenvolver uma sociabilidade que supere tais barreiras, certamente este espaço é o Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores.

Reconhecer estas questões, enfrentar nossas limitações (algumas individuais) enquanto coletivo, aprender com a pedagogia da luta, corrigir de forma construtiva, praticar a autocrítica cotidiana, olhar e estender a mão às companheiras e companheiros sempre que possível, escutar, divergir acolhendo na divergência, lutar se permitindo encantar pela luta e encantando na luta. São desígnios que podem parecer simples e até elementares, mas tais encaminhamentos exigem alguns alicerces materiais objetivos: é preciso promover formação política e espaços de acolhimento; fortalecer e tornar efetivas as esferas da comissão de ética do partido, que permitam equalizar questões que não sejam resolvidas por outros caminhos; construir e consolidar os mecanismos e instâncias de participação do partido de forma a potencializar ao máximo a atuação das bases; avançar na utilização das redes (sobretudo a partir da perspectiva de nossa juventude), inovando sempre com a contribuição da militância e no sentido de fortalecer a luta pela democratização dos meios de comunicação; adotar ferramentas e metodologias científicas que permitam ao partido se conhecer e conhecer sua militância (como a realização de um recenseamento, por exemplo); dar condições políticas e estruturais de funcionamento adequado às instâncias de base, como Diretórios Zonais, Setoriais e Núcleos de Base, inclusive utilizando as novas tecnologias para realizar esta tarefa. A maior virtude do PT é a sua militância. É preciso que em um momento como o atual – de tendência à desmobilização e a um “mal estar” generalizado no campo da esquerda e da sociedade – o partido faça uma escolha corajosa e encantadora em prol das suas bases: é preciso priorizar a recomposição e o fortalecimento da militância!

  • O PT e o Governo Rollemberg:

Como já mencionamos anteriormente, o governo Rollemberg é indefensável. Sua incapacidade de gestão e de execução das políticas públicas, sua adesão ao golpe contra a democracia, os escândalos de corrupção e as absurdas denúncias que pululam na mídia envolvendo diversas áreas (saúde, educação, transporte, etc.), o projeto privatizante, o descaso com as questões sociais e as diretrizes que estão na contramão dos interesses da classe trabalhadora são as marcas de um governo direitista totalmente alinhado com os interesses neoliberais, ao qual devemos seguir fazendo oposição, denunciando e evidenciando o nível de retrocessos impostos ao Distrito Federal.

  • Eleições de 2018:

O projeto do PT para as eleições de 2018 deve ser norteado por um sistemático esforço de inovação, assumindo a exata medida de seu compromisso e da sua responsabilidade junto à classe trabalhadora, às camadas populares e aos setores progressistas da sociedade: seguir na defesa e na construção de um projeto de promoção da justiça e da equidade social para todas/os.  Para tanto, é necessário superar as práticas espúrias da lógica eleitoreira que são adotadas pela direita, fortalecer a concepção eleitoral do partido a partir de nossas bases, nas redes e nas ruas, assegurando que as diretrizes de encantamento e acolhimento sejam convertidas em um potencial catalisador de votos e de adesão social aos objetivos propostos pelo partido.  Promover a unidade das esquerdas e de outras forças progressistas em torno de um programa mínimo, capaz de reencantar à sociedade do DF.

Chapa Regional/DF

Avante S21 e MAS-PT

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