Enfrentando o coronavírus

Quarta onda em Israel, com perda de eficácia de vacina, é alerta global

Desde o fim do ano passado, Israel é um laboratório para o mundo. Após obter acesso antecipado à vacina da BioNTech/Pfizer em troca do compartilhamento de informações sobre os seus efeitos, Israel foi o primeiro país a comemorar a reabertura completa de sua economia, depois de chegar às duas doses da vacina em 70% de sua população no começo de abril.

Agora, um dos países mais vacinados do mundo está entre as primeiras a experimentar uma alarmante quarta onda de contágios – e hospitalizações – e corre para dar doses de reforço. O resto do mundo deveria estar atento a isso.

Os novos contágios atingiram o maior patamar em seis meses em Israel, com sinais de que a proteção contra covid-19 caiu significativamente para as pessoas mais velhas vacinadas no começo deste ano. Os dados têm ressalvas, mas a tendência é clara: entre seis a oito meses depois de tomada a segunda dose, a imunidade começa a diminuir.

Mais recentemente, o Ministério da Saúde britânico constatou que, para as pessoas com mais de 65 anos que tomaram a segunda dose em janeiro, a proteção contra a agora dominante variante delta caiu para 55%, embora alguns analistas questionem esse número.

O governo também estimou recentemente que a eficácia da vacina em impedir novos contágios entre todos os que receberam a segunda dose em janeiro caiu bastante. No entanto, sua eficácia continua sendo de 82% na prevenção da manifestação grave da doença, e de 86% em evitar hospitalizações.

Embora pessoas não vacinadas continuem tendo de cinco a seis vezes mais probabilidade de acabarem gravemente doentes, 90% dos novos contágios em Israel estão ocorrendo entre pessoas completamente vacinadas e com mais de 50 anos. Autoridades de saúde alertaram que, às taxas atuais, pelo menos 5.000 pessoas precisarão de leitos de hospital até o começo de setembro, metade deles em UTI – duas vezes mais que a capacidade de atendimento de Israel. O país começou a oferecer às pessoas com mais de 60 anos, e logo às com mais de 50, uma terceira dose da vacina. Se ela se mostrar ineficaz, o governo alertou que um novo “lockdown” poderá ser inevitável.

O caso de Israel pode refletir uma combinação particular de fatores, e pode não se repetir necessariamente em outros países. O país está usando quase que exclusivamente a vacina de RNA mensageiro da Pfizer, com um intervalo de três semanas entre as doses. A imunidade proporcionada pelas vacinas da Oxford/Astra Zeneca e Moderna poderá se mostrar mais duradoura. Vários países como o Reino Unido ampliaram o tempo entre as duas doses para 12 semanas – de modo que as segundas doses foram recebidas mais tarde. Nem todos seguiram a política de vacinar primeiro os mais velhos.

Mas a experiência de Israel ainda tem implicações. Enquanto não se souber mais sobre a duração da proteção das diferentes vacinas, essa experiência sugere que até os países com altas taxas de vacinação deveriam manter algumas medidas preventivas, como o uso de máscara em locais públicos.

Ela também mostra que os programas de reforço, embora há muito esperados, poderão ter de ser relativamente frequentes e em grande escala, a menos que o vírus suma sozinho. Nos EUA, onde a variante delta também ganhou força no último mês, o governo Biden decidiu recomendar doses de reforço oito meses após a segunda dose – em parte após analisar os dados de Israel. Os EUA se preparam para oferecer essas doses de reforço a partir do mês que vem.

Isso levanta questões difíceis sobre o uso de vacinas escassas para estender a imunidade de populações ricas, em vez de direcioná-las para países em desenvolvimento que continuam em grande parte desprotegidos. Ainda assim, seria errado solapar todo o custoso progresso obtido no mundo desenvolvido com a exigência de novos lockdowns e ameaçando a recuperação econômica mundial – o que teria efeitos multiplicadores danosos para os países de baixa renda.

No entanto, tudo isso impõe uma urgência para intensificar a produção – inclusive no mundo em desenvolvimento. A maior lição da campanha de vacinação em Israel e outros países é que, por maior que seja a quantidade de vacinas, nunca será demais.

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